A Otorrinolaringologia, maiúscula, é uma disciplina encantadora. Aos meus olhos enviesados e vaidosos, não vejo outra área que reflita de maneira tão profunda a relação do paciente com suas cercanias. Passivamente, as estruturas por ela abarcadas – ouvidos, narizes e gargantas, sofrem, de modo muito particular, o impacto da relação do indivíduo com o meio à sua volta. Do tempo, do que se come, do quanto se dorme, da “imunidade”, das atividades recreativas. Do cuidado que se tem consigo. E, impactadas, são transparentes: cristalino eco de como se vive. Ativamente, desencadeiam respostas que abalam essa relação, prejudicam o viver, soam os alarmes de que algo não vai bem. Nada se esconde aos olhos dessa área que carrega sentidos tão primitivos quanto primordiais: o ouvir, o equilibrar-se, o perceber-se, o saborear, o cheirar.
A Otorrino, forma abreviada e mais afetuosa, é gigante. Ampla em suas dimensões e enorme nas suas possibilidades. Visa, primariamente, à vida com qualidade e funcionalidade. Almeja capacitar e recapacitar pacientes para, tratados de suas condições, perceberem e viverem o mundo da melhor forma.
Em especial, nesse universo fascinante, reluz uma constelação tão misteriosa como potente: o labirinto. Nosso labirinto compreende estruturas tão delicadas como complexas que – em última instância, nos permite nos perceber no espaço e captar o espaço à nossa volta. E são essas percepções que nos abrem possibilidades e garantem os exercícios de nossas habilidades e funções. Em outras palavras, permitem que nos relacionemos com o meio que nos cerca e que nos movimentemos de modo seguro e acurado. As informações ali silenciosamente geradas alimentarão circuitarias intrincadas que, se alteradas – levarão a tonturas, vertigens e desequilíbrios.
A essa altura podemos compreender o extremo desconforto percebido pelo paciente com disfunções desse nobre órgão: tudo se torna incômodo e difícil. O sujeito tonto se sente incapaz. Assim, é preciso, antes de tudo, ser solidário com o paciente tonto; acolher sua queixa e entender suas dificuldades; não menosprezar suas limitações. Em seguida, é preciso ser científico: investigar causas e depois definir tratamentos direcionados. Por fim, é fundamental ser humano: caminhar junto, apesar de diagnósticos e prognósticos, cientes de que sempre há o que se fazer.
Curitiba, 01 de Agosto de 2023
Lucas RL Mangia