Praeambulus

Não é fácil precisar as circunstâncias que me levaram a ser médico. Digo “ser” – e não “querer”, porque considero essa condição uma vocação, muito antes que acaso desejo ou profissão. Em minha história, o destino da Medicina parece anteceder qualquer sopro de consciência, tornando árdua a tarefa de delimitar momentos ou motivos que nortearam meu caminho. Certo, contudo, é que meus passos estiveram pavimentados por sentimentos – empatia, naturalidade, gratidão; e atitudes – esforço, disciplina e resiliência, que, rebobinado o fio da trajetória, continuam a me inspirar para o que há de vir.

A prática médica é desafiadora – não restam dúvidas. Muitas respostas, inéditas ou mais acuradas, estão guardadas para o futuro – e lidar com incertezas não é sempre acessível no primeiro ato. Mas, se me permitirem algum atrevimento nessa jornada, será o de tecer juízo sobre o que poderia conceber a boa e nobre prática médica contemporânea. Nesse sentido, devo permitir à frente o pulsar mais legítimo da minha inegável e peculiar veia científica. Esse traço inato quase-anatômico encorpou e se tornou mapas e roteiros. Seguindo-o, me dediquei – me dedico e dedicarei, com brioso afinco, à formação acadêmica, ao pertencimento à Universidade, à construção de Ciência e ao ensino de colegas. Paralelamente, tornou-se inexorável agir, por princípios e meios, sempre cientificamente. Resultado: não sou capaz de conceber prática médica ética e competente que desrespeite o que a Ciência reporta. É meu pilar. Entretanto, retomo o início deste parágrafo – sobre a inesgotabilidade do conhecimento e da consequente limitação do científico – para justificar o que considero também salutar na Medicina. Somos seres complexos, dinâmicos e contextualizados em cenários ambientais, psicológicos e sociais muito particulares. Assim, para se compreender e tratar indivíduos e processos de saúde-doença, é preciso personalizar o cuidado. Considerar vivências e travessias muito pessoais que – senão causa, contribuem largamente para o adoecimento crônico e, em falsa oposição, devem alicerçar planos terapêuticos. 

Como abordar a complexidade de cada caso crônico, se ele não é menos que uma trama única e própria à história daquele indivíduo? Talvez seja a Ciência nossa maior diretriz, porém é irrefutável a necessidade da escuta ativa, do olhar amplo e do entendimento compassivo. A consulta médica deve, enfim, ser uma conjunção entre o que se sabe e se descobre e aquilo que não se sabe ou se conhece. Exige tempo e genuíno interesse. Demanda equilíbrio. Contrapesar a robustez científica com as miudezas imponentes singulares a cada paciente é uma Arte a ser lapidada. Engana-se e engana quem diz não haver o desconhecido. Fracassa aquele que desconsidera e não acolhe o que não se sabe. Encanta-se quem abraça o porvir. A marcha é perpétua.

Curitiba, 10 de Julho de 2023.

Dr. Lucas RL Mangia